A Tristeza e seus portais: Paisagens, pôr-do-sol e prainhas no final das ruas

Por Marcelo Allet*

Fig 1: simulação eletrônica do projeto elaborado pelo escritório K+S Arquitetos Associados, por encomenda da clínica PRONTOSUL. Fig. 2: Pôr – do-sol no local.

A tristeza de que estamos falando não é aquela da alma, bem como os portais não são aqueles da internet. Nossa Tristeza aqui é aquela que dá nome ao bairro da Zona Sul de Porto Alegre e o portal é aquele que nos remete a uma outra dimensão… a um lugar diferente… e até mesmo a um outro tempo…

Pois é, recentemente a mídia local noticiou a feliz iniciativa de uma clínica médica do bairro Tristeza que, ao literalmente “ativar” um destes portais, nos fez lembrar que Porto Alegre tem destas coisas: na porção sul do seu território, uma ambiência balneária ainda bucólica e, no final de algumas de suas ruas, prainhas e paisagens aquáticas transfiguradas por um pôr-do-sol de rara beleza cênica, por vezes até de aspecto fantasmagórico. O portal “ativado” foi um pequeno espaço público – até então esquecido – no final da Rua Armando Barbedo, mas que conta, agora, com condições bastante satisfatórias de utilização.

Curioso, e hoje atuando sob empréstimo do Executivo Municipal junto ao Gabinete do Vereador João Carlos Nedel – presidente de uma “Frente Parlamentar de Turismo” (FRENTUR) aqui da nossa Câmara de Vereadores – fui visitar o portal a convite e na companhia do novo chefe.

 

Ali parado olhando o Guaíba, o barulho das águas lambendo a sua pequena prainha acabou por me remeter não apenas a uma experiência agradável mas, justamente por conta desta, a algumas lembranças e reflexões que me parecem oportunas de aqui se compartilhar.

 

Imagem de satélite do bairro Tristeza e redondezas com o registro em amarelo da nove ruas sistematizadas pelo GT ORLA em 2005 como “Projeto “Portais do Guaíba”.

Lembrei da ex-chefe e hoje grande amiga, Arquiteta Ligia Klein Ebessem, que ainda em 2005, na condição de coordenadora do Grupo de Trabalho da Orla (GT ORLA) da extinta Secretaria do Planejamento Municipal (SPM/PMPA), identificou a vocação de “portal”, de lazer e de turismo desta e de outras oito ruas do bairro Tristeza.

Imagem atual dos dois Portais executados pela PMPA/SMURB/GT ORLA com a parceria da Construtora R Correa.

Estimulado, aquele grupo de arquitetos, engenheiros, biólogos e geógrafos, todos servidores  municipais, sistematizou e batizou tais potencialidades de “Projeto Portais do Guaíba” e – naquela época com a colaboração de parceiros privados – chegamos a executar dois portais: um na Rua Otto Niemeyer e outro na Rua Mario Totta. Hoje meio desativados, mas ainda portais.

No final da Rua Augusta Link, ontem e hoje, a curiosa formação rochosa que da nome ao bairro Pedra Redonda, entre os bairros Tristeza e Ipanema.

A partir daí, lembrei, por fim, que havia atuado ali o conceito essencial de “espaço-tempo”, aquele binômio que entrelaça História e Geografia e tudo muda. Fui remetido então para a Zona Sul da primeira metade do século XX, nas praias da Pedra Redonda, do Ipanema e de tantas outras dos bairros vizinhos do – então mais alegre – bairro Tristeza.

Famílias tomando banho nas praias da Zona Sul de porto Alegre na primeira metade do século XX (foto: https://pt.slideshare.net/emefvmc/guaba-um-falso-rio-conta-a-histria-da-cidade).

Lembrei da beira de praia do bairro Ipanema, que até a década de 1980 protagonizou eventos memoráveis como o Hollywood Vela… e também de algum porto-alegrense dizendo cheio de um orgulho saudoso: “eu tomei banho no Guaíba quando era criança”; muito provavelmente na Praia do Cachimbo ou na Prainha da Pedra Redonda; naquela época, balneários requintados e graciosos da Porto Alegre de então.

Praia de Ipanema, na década de 1970.

Ainda ali parado olhando o Guaíba, percebi o quanto, com o tempo, fomos perdendo de convívio e interação prazerosa com os espaços de orla da nossa Cidade, sobretudo os da Tristeza, os da Pedra Redonda e os do Ipanema. Fui então remetido de volta ao presente e vieram as reflexões:

 

Indicação sobre imagem de satélite de diversos outros espaços de orla na Zona Sul de Porto Alegre com potencial de Portais.

A primeira foi sobre a quantidade de outros espaços de orla que existem na Zona Sul – também portais em potencial – e sobre como seria proveitoso ativá-los de forma mais sistemática; afinal, além de oportunidades, hoje desperdiçadas de lazer e recreação para todo e qualquer porto-alegrense, estes espaços também são – a partir de pequenos e bem pensados investimentos – oportunidades de atratividade turística, de espaços públicos qualificados, de apropriação cotidiana (e daí segurança pública), bem como, oportunidades para a criação – via turismo, comércio e serviços – de mais emprego e renda para a população local.

Condição atual de relativo abandono (30/05/2018) dos finais de rua integrantes do Projeto Portais do Guaíba. Fotografia das ruas Padre João Batista Réus, Mário Totta e Otto Niemeyer.

A segunda reflexão foi sobre o por que (?) aqueles dois portais que o GT ORLA há algum tempo executou, se encontram hoje “meio desativados”(?); sobre como evitar que isto também aconteça com este portal da Barbedo agora ativado (?); a reflexão sobre como evitar que se repita, ao que parece, o gradual declínio da apropriação mais intensa, cotidiana e duradoura por parte dos usuários que de início o acolhem (?); enfim, a reflexão sobre que “ingredientes” estariam faltando no conceito e no atual modelo espacial destas intervenções (?) para que evitemos o esvaziamento de uso e, daí, a insegurança, o vandalismo e, novamente, o desperdício das oportunidades que representam.

Finalmente, a terceira reflexão foi sobre a saudável, legítima e oportuna orientação do presidente da FRENTUR para uma atuação mais efetiva do seu gabinete no sentido da verificação destes ingredientes e como operacionalizá-los. Tarefa sobre a qual esta sua assessoria técnica, bem como parte dos colegas da sua equipe já estão debruçadas, no intuito de avançarmos para conceitos e modelos de intervenção espacial mais eficazes.

As principais componentes do Imaginário Social Urbano dos bairros ribeirinhos da Zona Sul de Porto Alegre: à direita, o trem que levava os porto-alegrenses dos bairros mais centrais para as praias da Pedra Redonda, passando pela “Estação da Tristeza”. Atualmente um grupo de moradores vem tentando restaurar a sua locomotiva para instalá-la como um monumento na Praça Comendador Souza Gomes, de localização central e bastante valorizada no bairro. Á direita, de cima para baixo, o Clube Mil e Uma Noites, amigas na beira praia e crianças interagindo com as águas do Guaíba.

 

Como arquiteto a serviço da Cidade e porto-alegrense, que escolheu há 20 anos o bairro Tristeza para viver, me atrevo a dizer que existe aqui um imaginário de valorização e resgate do prazer urbano cotidiano que experimentaram os nossos longínquos vizinhos da Zona Sul da primeira metade do século XX. Claro está que este resgate passa pela despoluição do Guaíba, o que gradualmente vem, ainda que lentamente, evoluindo, nos últimos anos.

Bem: quanto ao turismo, vale lembrar que a atratividade turística de uma cidade reside na alma da sua gente… alma que se reproduz no tempo e se materializada nos seus espaços urbanos. A inauguração recente deste novo “Portal da Barbedo” parece indicar que há, literalmente, “espaço” para avançarmos ainda mais neste sentido.

Em nome do seu presidente, portanto, a FRENTUR parabeniza e agradece ao Centro Médico PRONTOSUL por nos lembrar disto.

 

 

*Arquiteto, Esp.Planejamento Urbano e Regional PROPUR – UFRGS
Assessor Técnico do Gabinete do Ver. João Carlos Nedel

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s